A notícia:
"Gracie: houve falha em procedimento policial, diz CEDPH", A Tarde On-line

Provavelmente, todo mundo está à par do mais recente caso Gracie. Na mídia não se fala em outra coisa a não ser a morte de Ryan Gracie e o fim da CPMF.
Como de economia não entendo, vou me limitar a falar da morte do lutador de jíu-jitsu.
Obviamente, a coisa toda não possui qualquer envolvimento em particular comigo. Não se deu em Belo Horizonte e, tampouco trata-se de um homicídio (ao menos não doloso). Mas a verdade é que, dadas as particularidades da situação, acabou por envolver policiais e uma prática bastante comum no Brasil, mas que a mídia insiste em ignorar: os constantes benefícios dos ricos e poderosos.
Veja bem: claro, tenho todo o respeito pela dor da família de Ryan Gracie. Mas a verdade é que o rapaz, no auge de seus 33 anos, morreu vítima de sua invejável condição social.
Primeiramente, observemos a vida pregressa do rapaz. Uma prisão por tentativa de homicídio, uma rápida dentenção por dirigir embriagado, resistir à prisão e agredir um policial em serviço. O quadro do delinqüente nascido em berço de ouro não é novidade no país. Tivemos o índio Galdino, Suzane Louise von Richthofen, a empregada doméstica Sirlei Dias e o Retrato de Um Playboy parte II. Isso pra ficar só em alguns. O ponto é que, na forma como vejo as coisas, uma criação abonada pode ser moralmente displicente (ainda que, me mostra a experência, o oposto econômico também gera resultados igualmente repreensíveis).
Segundo, a questão que os jornais trazem: Ryan Gracie não foi levado a um hospital, à despeito de estar visivelmente agitado. Realmente, trata-se de procedimento padrão: sempre que um preso sente-se mal, é encaminhado (e escoltado) ao hospital público mais próximo. Eu mesmo já perdi as contas de quantas madrugadas passei em hospitais escoltando presos. Ou seja, os policiais de plantão agiram errado ao permitirem que o médico particular dos Gracie atendesse o preso dentro das dependências da cadeia. Aqui é onde as manchetes param. Falta-lhes um certo espírito investigativo (ou sobra rabo-preso) pra fazer uma simples pergunta: por que Ryan Gracie não foi levado a ser medicado num hospital público?
A meu ver, temos duas respostas, ao mesmo tempo válidas e complementares. Considero, de princípio, que Ryan Gracie não estava se sentindo mal. Do contrário estava agitado, o que, tendo em mente sua vida pregressa, é um comportamento bastante normal. Dr. Sabino, o médico (psiquiatra por especialidade, importante ressaltar), é então chamado. Seja pelo próprio Ryan, seja a mando de seus parentes. A segunda hipótese é até mais natural em nossa cultura. Ryan, como agora se sabe, estava sob efeito de várias drogas, como cocaína e maconha. Sendo quem é, tendo o prestígio e a fama que tem, pede para falar com o médico. Este vem, medica o lutador (com haldol, um anti-psicótico usado para contenção de pacientes em surto) e sugere, sabe-se lá se por idéia do próprio lutador, que a família "adiante um" aos policiais plantonistas para que ele possa "comer uma pizza, tomar um sorvete", etc. O que se segue pode ser visto em qualquer matéria de jornal.
Sendo Gracie um pobre, ou alguém da classe média, não chamaria médico, nem poderia fazê-lo. Ia pra cadeia, com os outros presos, e, passando mal, ganhava maca num hospital público qualquer. Talvez, e esta palavra é bastante importante, ainda estaria vivo. Porque não seria medicado com vistas a disfarçar um estado de ingestão química criminosa, mas para re-estabelecer a normalidade de sua saúde.
Não vou eximir a culpa dos policiais. Foram corruptos por fornecerem tratamento diferenciado em função do status socio-econômico de um infrator. Como já disse lá no início do relato, é prática muito comum em neste país habitado por homens-cordiais, como diria Sérgio Buarque de Hollanda. Mas é importante não desculpabilizar também Ryan Gracie. Ou os Gracie.
Porque os corruptíveis estariam perdidos sem os corruptores.
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