quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Mulheres de Jerusalém

A notícia:


Sempre me instigaram, e não de forma positiva, as mães, as mulheres que cercam vítimas e autores de homicídios. Não estou desconsiderando que os parentes e amigos do sexo masculino não sofram com a perda, pois é certo que sofrem. Entretanto, talvez pela tradição cultural, são as mulheres que deixam evidente esse sofrimento e, ao mesmo tempo, são elas as únicas que a despeito do mesmo sofrimento, desentocam forças para conversar, contar o que houve, o que sabem, e o que querem que eu saiba.
Há algum tempo atrás escrevi um texto (não sei que nome dar a ele. Se crônica, se ensaio, se resenha. Não sei) batizado "Mulheres de Jerusalém" e agora, aproveito para publicá-lo aqui:


Mulheres de Jerusalém


Duas vezes por semana, quatorze, vinte e quatro horas de cada vez, elas estão lá.
Ainda que eu me disfarce de muro intransponível, de criatura transcendental há ponto de, ao mesmo tempo, saber e não sentir, elas estão lá.
Os olhos são um pouco embaçados às vezes, outras nem tanto. Muitas vezes são simplesmente vazios, lacrimosos, incrédulos. Ao contrário dos curiosos, não fitam as armas dependuradas pelos meus ombros, cintura, mãos. Não olham o carro parado, imponente, bicolor, luzes acesas. Em verdade, nem mesmo me fitam ali, naquele momento. Mas é como se me olhassem por dentro, o tempo todo.
Ao final daquelas horas, armas depostas, carro abandonado, abrigado e imóvel, vou-me de volta para minha própria vida. Aos meus amigos bonitos, inteligentes, bem nascidos, bem alimentados. Vou falar dos casos que vi, das provas que virão, dos jogos de futebol que eu não verei, dos filmes. Fingir que esqueço deles. Dos olhos, das vozes.
Não, eu não vejo a televisão. Não quero saber das notícias ruins, das mortes, dos seqüestros, dos latrocínios e de toda essa sorte de palavras estranhas e ruins que o homem inventa e que, de repente, se voltam contra ele. Ainda que existam, que me possam ser oferecidas coisas boas pela televisão, as ruins são maiores e piores, e eu não quero correr o risco de dar força a eles, aos olhos, às vozes, às lamúrias.
Mas não é possível, pois me seguem.
A primeira, era muito forte. Não chorava. Os olhos estavam um pouco marejados, a voz sem muita força, mas firme. Contou-me a história que eu queria ouvir. Pr’essa senhora, o filho havia morrido no dia do aniversário. Era o caçula de três. Numa escalada de mortos, era o segundo. Talvez o do meio. Morrera por tiros. Do outro lado da arma, um sujeito qualquer, um criminoso como não podia deixar de ser. Um assassino já experimentado, experimentado pelo menos uma vez pregressa: matara também o filho mais velho daquela mulher. Seus olhos marejados ganhavam sentido agora, na fraqueza que transmitiam: eram um tanto quanto acusatórios, como se dissessem, a todo instante, a mesma coisa: “Você não fez nada na primeira vez, não fará agora”. Entretanto, ao contrário do que parece, não exigiam nada. Mostravam consciência de quem sabia que, apesar da dor, nada havia para ninguém fazer. Cada homem podia escolher seu destino, e, aquele filho que ela preparava para enterrar em algumas horas, escolhera muito mal. Mas saber não diminui o sentir.
E, aqueles olhos marejados e opacos, passaram a me seguir.
A eles se juntaram outros tantos. Uns tão inchados que nada deles se podia ver. Uns interrogando “O que será de mim agora?”, outros acusando: “Porque você não faz nada, virão levar também meus outros filhos!”. Uns incrédulos, chamando pelo nome dos filhos mortos: “Davi, que te fizeram, Davi! Levanta menino, está sujando sua roupa toda nesse sangue! Davi!”. Raros, alguns esperam redenção e força frente à firmeza e segurança que eu, amador, enceno, e dizem: “Cuida dos meus outros meninos! Não deixa que façam isso aos nossos outros filhos!”. Como que se esperassem, na minha figura esguia, um Cristo, um salvador. Não são capazes de ver que, em verdade, o que têm a frente é mais Judas do que Cristo. Estes olhos ao contrário dos outros, machucam muito mais pois não trazem mais em si, reluzindo torpe e débil, aquela chama de esperança. Não sabem que o mundo é, antes de tudo, cinza, e que não há mão ou gesto salvador vindo dos céus (ou Deus, de mim mesmo!) capaz de lhes secar o pranto, de lhes dar o conforto que nunca lhes deveria ter sido tirado.
São eles todos. Os olhos, os sonhos arruinados das mulheres de Jerusalém. Aquelas todas que não ouviram, que ousaram, que geraram, amamentaram. E enterraram.

Eles todos me seguem. Sete vezes por semana, vinte e quatro horas de cada vez. Os olhos, as vozes, as lamúrias e os choros das abandonadas mães de Jerusalém.


“Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim! Chorem por vocês mesmas e por seus filhos! Porque dias virão, em que se dirá: ‘Felizes das mulheres que nunca tiveram filhos, dos ventres que nunca deram à luz e dos seios que nunca amamentaram.’”
(Lc 23, 28-29)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A vida no Jornal Nacional

A notícia:




Provavelmente, todo mundo está à par do mais recente caso Gracie. Na mídia não se fala em outra coisa a não ser a morte de Ryan Gracie e o fim da CPMF.

Como de economia não entendo, vou me limitar a falar da morte do lutador de jíu-jitsu.

Obviamente, a coisa toda não possui qualquer envolvimento em particular comigo. Não se deu em Belo Horizonte e, tampouco trata-se de um homicídio (ao menos não doloso). Mas a verdade é que, dadas as particularidades da situação, acabou por envolver policiais e uma prática bastante comum no Brasil, mas que a mídia insiste em ignorar: os constantes benefícios dos ricos e poderosos.
Veja bem: claro, tenho todo o respeito pela dor da família de Ryan Gracie. Mas a verdade é que o rapaz, no auge de seus 33 anos, morreu vítima de sua invejável condição social.
Primeiramente, observemos a vida pregressa do rapaz. Uma prisão por tentativa de homicídio, uma rápida dentenção por dirigir embriagado, resistir à prisão e agredir um policial em serviço. O quadro do delinqüente nascido em berço de ouro não é novidade no país. Tivemos o índio Galdino, Suzane Louise von Richthofen, a empregada doméstica Sirlei Dias e o Retrato de Um Playboy parte II. Isso pra ficar só em alguns. O ponto é que, na forma como vejo as coisas, uma criação abonada pode ser moralmente displicente (ainda que, me mostra a experência, o oposto econômico também gera resultados igualmente repreensíveis).
Segundo, a questão que os jornais trazem: Ryan Gracie não foi levado a um hospital, à despeito de estar visivelmente agitado. Realmente, trata-se de procedimento padrão: sempre que um preso sente-se mal, é encaminhado (e escoltado) ao hospital público mais próximo. Eu mesmo já perdi as contas de quantas madrugadas passei em hospitais escoltando presos. Ou seja, os policiais de plantão agiram errado ao permitirem que o médico particular dos Gracie atendesse o preso dentro das dependências da cadeia. Aqui é onde as manchetes param. Falta-lhes um certo espírito investigativo (ou sobra rabo-preso) pra fazer uma simples pergunta: por que Ryan Gracie não foi levado a ser medicado num hospital público?
A meu ver, temos duas respostas, ao mesmo tempo válidas e complementares. Considero, de princípio, que Ryan Gracie não estava se sentindo mal. Do contrário estava agitado, o que, tendo em mente sua vida pregressa, é um comportamento bastante normal. Dr. Sabino, o médico (psiquiatra por especialidade, importante ressaltar), é então chamado. Seja pelo próprio Ryan, seja a mando de seus parentes. A segunda hipótese é até mais natural em nossa cultura. Ryan, como agora se sabe, estava sob efeito de várias drogas, como cocaína e maconha. Sendo quem é, tendo o prestígio e a fama que tem, pede para falar com o médico. Este vem, medica o lutador (com haldol, um anti-psicótico usado para contenção de pacientes em surto) e sugere, sabe-se lá se por idéia do próprio lutador, que a família "adiante um" aos policiais plantonistas para que ele possa "comer uma pizza, tomar um sorvete", etc. O que se segue pode ser visto em qualquer matéria de jornal.
Sendo Gracie um pobre, ou alguém da classe média, não chamaria médico, nem poderia fazê-lo. Ia pra cadeia, com os outros presos, e, passando mal, ganhava maca num hospital público qualquer. Talvez, e esta palavra é bastante importante, ainda estaria vivo. Porque não seria medicado com vistas a disfarçar um estado de ingestão química criminosa, mas para re-estabelecer a normalidade de sua saúde.
Não vou eximir a culpa dos policiais. Foram corruptos por fornecerem tratamento diferenciado em função do status socio-econômico de um infrator. Como já disse lá no início do relato, é prática muito comum em neste país habitado por homens-cordiais, como diria Sérgio Buarque de Hollanda. Mas é importante não desculpabilizar também Ryan Gracie. Ou os Gracie.
Porque os corruptíveis estariam perdidos sem os corruptores.