sexta-feira, 16 de novembro de 2007

"Posso oiá o carro pu sinhô, dotô?"

A notícia:
...
Raramente um feriado começa bem quando se tem que trabalhar. E qualquer chance de ser um bom feriado desaparece quando, logo de manhã cedo, há uma chamada de local de homicídio. Piore a situação ainda mais um pouco: coloque uma vítima, um frentista (ou flanelinha) como autor e uma prostituta como testemunha presencial. Um circo perfeito está montado, e a imensa quantidade de repórteres presente atestava o fato.
Pouco há de diferente do que os meios de comunicação relataram. Numa disputa de ponto de guarda de carros, um flanelinha "executou" o outro. Fim de conversa.
Mas alguns detalhes aparentemente escapam ao jornalista mais experimentado. Por exemplo, o fato de que a vítima tinha passagem pela polícia por assalto à mão armada e o autor, nada. Que o autor, Álvaro, estava quieto e conversando, mas não de tranquilidade, mas de choque.
Ninguém lhe perguntou, de verdade, sobre o que aconteceu. É pardo, tem cabelo esquisito e matou alguém. Sumariamente culpado.
Álvaro diz que trabalha na região, guardando e lavando carros há quase dois anos. Que e dali que tira dinheiro pra sustentar mulher, enteada e uma neta da esposa, também esta desempregada. Conta e chora. Semana passada, um sujeito que ele nunca viu, a vítima, achegou-se de seu ponto de trabalho e atirou contra ele, dizendo que o lugar agora era dele. O autor, cuja filha da enteada está internada no hospital por dificuldades no parto, juntou o dinheiro que tinha e comprou um revólver cal. 32. Desceu perto do ponto que costumava guardar carros, viu a vítima, Israel, numa mesa de trailer. Chegou perto e, sem dizer palavra, disparou. Não sabe dizer quantas vezes, foram os policiais militares que lhe disseram: cinco vezes. Fugiu correndo para o ponto de ônibus. Ia voltar para casa e, naquela noite, trabalharia de novo em seu ponto como antigamente.
...
Em torno daquela cena toda, muita gente bonita e bem vestida, situção raríssima de se ver. Loiras naturais, cachorinhos no colo, camisetas, bermudas, tênis e penteados caros. Nos rostos, um misto de revolta e curiosidade mórbida. Celulares de último tipo fotografavam tudo, de manchas de sangue a chinelos perdidos. Há de se perguntar o que os revolta: talvez a morte de um ser humano que, como tal, tem tanto direito à vida como qualquer um de nós; talvez lhes revolte que um homem resolva matar outro para trabalhar e cuidar dos seus.
Não.
Lhes revolta os tiros perto de casa. A morte violenta e deliberada de alguém ali, sob seus narizes.
Belo Horizonte pega fogo diariamente, com uma média (não calculada, apenas baseada na experiência empírica) de 2-3 homicídios diários, mas eles não se importam. Acontecem muito longe, nas favelas, no Barreiro, em Venda Nova. Onde não interessa.
No mundo cor-de-rosa daquelas Barbie's de botox, ninguém morre.
Isso me revolta.

Nenhum comentário: