Outro dia, já em novembro, enquanto minha cabeça girava a mil com o homicídio de minha colega, aconteceu uma reunião quase ordinária, mas não foi.
Encontraram-se o chefe da Polícia Civil em Minas Gerais e o chefe da Divisão de Crimes Contra a Vida. A pauta era uma só: o crescente número de homicídios em Belo Horizonte e a queda no índice de apurações. Certamente o chefe da DCCV sofreu um repreenda e a ordem de melhorar as coisas. Naturalmente isso ia chegar até mim, o degrau mais baixo daquela escada.
As notícias sempre chegam antes das ações, e eu estava no alto da favela do bairro Santa Lúcia quando fiquei sabendo da tal reunião. À minha frente, uma vista maravilhosa da barragem, dos campos de futebol, das luzes dos prédios e das belas casas da orla. Ao meu lado, um garoto de dezoito anos recém completos, muito tiros pelo corpo, muito sangue sob um lençol marrom, esse ato de piedade último e que sempre se encontra.
Algumas favelas em Belo Horizonte são quase míticas. Poucas vezes atendi a homicídios no Sta. Lúcia, por exemplo, mas ela é considerada perigosa demais para irmos em duplas apenas. No mesmo grupo do Sta. Lúcia, a Pedreira Prado Lopes, a Morro das Pedras, o Cafezal, o Cabana e mais algumas poucas. Nunca apenas de duplas, sempre com armamento mais pesado, mais tensão e coletes à prova de balas.
Mas acerca do caso. O garoto foi morto numa espécie de passarela, ao lado de uma escadaria e sob um poste de madeira. Do lado oposto da escadaria fica o barraco em que morava com a mãe, o padrasto e alguns irmãos, que eu não soube precisar quantos eram. O barraco, como é muito comum, era de cimento (tirem das suas cabeças os barracos de madeira e lona. Praticamente não existem nas favelas, apenas debaixo de viadutos e passarelas). Uma espécie de cozinha, um banheiro e um quarto. Essa cozinha tinha pegado fogo alguma vez, de modo que as paredes eram sujas de fuligem e o cheiro de fumaça impregnava o ar. Me deu pânico, dificuldade de respirar. Me apoiei na submetralhadora e fiquei na porta, metade do corpo fora.
A mãe do garoto morto, uma senhora muito humilde vinda do interior, contou que, à hora do fato estava na igreja. Não contestei, era quarta-feira, dia de culto em muitas neo-pentecostais. Disse que o companheiro também não estava, e que os filhos ficavam trancados dentro de casa.
Na cozinha, uma janela dava plena visão do corpo do filho, tinha ares de camarote para se ver o fato. Os garotos, trancados em casa, não tinham mais que 16 anos. O que se encantou pela submetralhadora e perguntou se eu era um policial disfarçado não devia ter mais que onze anos.
A mãe disse que o filho mais velho era travesso desde sempre. Que aprontava e, quando ia ser repreendido, fazia cara de cachorrinho abandonado. Contou também que o rapaz estava cumprindo pena alternativa, mas que não podia pisar no outro lado da favela porque tinha sido ameaçado lá.
Mais do que isso ela não sabia dizer.
Mas os filhos certamente sabiam. Se não viram nada, ouviram e, se ouviram, talvez soubessem da identidade dos autores, já que eu não acredito que tenha sido alguém da outra parte da favela, eles não entrariam dentro do território dos outros pra matar alguém.
Talvez você pense que era fácil, só apertar os garotos e eles contam o que sabem. Mas... E depois? Depois que aquelas três viaturas da Polícia Militar e aquelas três da Polícia Civil (contando rabecão e perícia) saírem, quem cuida daquelas famílias?
Quando um dos garotos, o de dezesseis anos, quis dizer alguma coisa, a mãe impediu-o. Já tinha dado a entender que ia se resignar na perda do primeiro filho, e que não se envolveria com mais nada que dissesse respeito àquele, já morto. Mas ao impedir o outro, deixou claro: não quero repetir essa história com outro protagonista.
As mães dos mortos sempre me instigam, mas eu as compreendo.
E muito.
Nenhum comentário:
Postar um comentário