Mataram uma moça.
Grande novidade, matam moças quase todos os meses, eu já atendi várias ocorrências envolvendo-as.
Mas desta vez foi diferente. Uma estudante universitária, morta pelo namorado com treze tiros. O fato em si não deu-se ontem, dia 07 de novembro, mas anteontem, dia 06. Pra mim aconteceu ontem, quando tomei conhecimento.
A notícia é esta aqui:
BELO HORIZONTE -Está sendo enterrado, nesta manhã, no cemitério Parque da Colina, região oeste de Belo Horizonte, o corpo da estudante Érica Alves Arantes, de 22 anos, que foi morta com treze tiros pelo ex-namorado, Roberto Márcio Marra, de 25 anos, na noite de terça feira. Depois de cometer o crime, o jovem foi até o Centro Universitário Newton Paiva, unidade do Caiçara, onde estudava direito, e também se matou, pulando do nono andar do prédio. O corpo de Roberto Márcio Marra foi enterrado ontem, no cemitério Bosque da Esperança, região norte. Os dois namoraram durante sete anos e na última semana, a jovem resolveu romper o relacionamento. Inconformado, Roberto Marra foi até a casa da ex- namorada, no bairro Ouro Preto, armado com um revólver. Os dois foram para o quarto conversar, e quando o jovem apontou a arma, a menina chegou a correr, sendo morta no banheiro, com 13 tiros. O estudante de direito foi então para a faculdade, onde estudava e pulou pela janela da biblioteca. Um inquérito policial será aberto para descobrir como o jovem conseguiu a arma usada no crime. (Fonte: Jornal Extra online)
Eu poderia estar de plantão e atender à essa ocorrência. Ver no chão, na poça de sangue, uma colega, um rosto conhecido.
O que seria de mim? Seria possível manter toda a impassividade, a frieza, o profissionalismo? Seria capaz de tocá-la, mover o corpo, apalpar a poça de sangue em busca de um projétil, uma jaqueta de bala?
Veja bem! Fui à aula na terça-feira. Possivelmente vi a Érica passando pelo corredor. Na quarta, quando chego, me dizem que ela morreu. Assassinada.
Todas as vítimas de homicídio que vejo, é como se fôssemos apresentados ali: ela no chão, sangue por todos os lados, eu tenso de arma em punho. Quando eu ver aquele rosto de novo, mesmo que numa foto feliz, vou ter em mente que conheci aquela pessoa numa situação violenta, pintada em tons de vermelho e cinza.
Com a Érica não. Encaixá-la mentalmente na violenta cena de um homicídio é bastante difícil e me deixa perplexo: uma hora pode ser alguém que eu conheça à fundo, e a dor será muito pior, certamente...
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