Ainda que eu me disfarce de muro intransponível, de criatura transcendental há ponto de, ao mesmo tempo, saber e não sentir, elas estão lá.
Os olhos são um pouco embaçados às vezes, outras nem tanto. Muitas vezes são simplesmente vazios, lacrimosos, incrédulos. Ao contrário dos curiosos, não fitam as armas dependuradas pelos meus ombros, cintura, mãos. Não olham o carro parado, imponente, bicolor, luzes acesas. Em verdade, nem mesmo me fitam ali, naquele momento. Mas é como se me olhassem por dentro, o tempo todo.
Ao final daquelas horas, armas depostas, carro abandonado, abrigado e imóvel, vou-me de volta para minha própria vida. Aos meus amigos bonitos, inteligentes, bem nascidos, bem alimentados. Vou falar dos casos que vi, das provas que virão, dos jogos de futebol que eu não verei, dos filmes. Fingir que esqueço deles. Dos olhos, das vozes.
Não, eu não vejo a televisão. Não quero saber das notícias ruins, das mortes, dos seqüestros, dos latrocínios e de toda essa sorte de palavras estranhas e ruins que o homem inventa e que, de repente, se voltam contra ele. Ainda que existam, que me possam ser oferecidas coisas boas pela televisão, as ruins são maiores e piores, e eu não quero correr o risco de dar força a eles, aos olhos, às vozes, às lamúrias.
Mas não é possível, pois me seguem.
A primeira, era muito forte. Não chorava. Os olhos estavam um pouco marejados, a voz sem muita força, mas firme. Contou-me a história que eu queria ouvir. Pr’essa senhora, o filho havia morrido no dia do aniversário. Era o caçula de três. Numa escalada de mortos, era o segundo. Talvez o do meio. Morrera por tiros. Do outro lado da arma, um sujeito qualquer, um criminoso como não podia deixar de ser. Um assassino já experimentado, experimentado pelo menos uma vez pregressa: matara também o filho mais velho daquela mulher. Seus olhos marejados ganhavam sentido agora, na fraqueza que transmitiam: eram um tanto quanto acusatórios, como se dissessem, a todo instante, a mesma coisa: “Você não fez nada na primeira vez, não fará agora”. Entretanto, ao contrário do que parece, não exigiam nada. Mostravam consciência de quem sabia que, apesar da dor, nada havia para ninguém fazer. Cada homem podia escolher seu destino, e, aquele filho que ela preparava para enterrar em algumas horas, escolhera muito mal. Mas saber não diminui o sentir.
E, aqueles olhos marejados e opacos, passaram a me seguir.
A eles se juntaram outros tantos. Uns tão inchados que nada deles se podia ver. Uns interrogando “O que será de mim agora?”, outros acusando: “Porque você não faz nada, virão levar também meus outros filhos!”. Uns incrédulos, chamando pelo nome dos filhos mortos: “Davi, que te fizeram, Davi! Levanta menino, está sujando sua roupa toda nesse sangue! Davi!”. Raros, alguns esperam redenção e força frente à firmeza e segurança que eu, amador, enceno, e dizem: “Cuida dos meus outros meninos! Não deixa que façam isso aos nossos outros filhos!”. Como que se esperassem, na minha figura esguia, um Cristo, um salvador. Não são capazes de ver que, em verdade, o que têm a frente é mais Judas do que Cristo. Estes olhos ao contrário dos outros, machucam muito mais pois não trazem mais em si, reluzindo torpe e débil, aquela chama de esperança. Não sabem que o mundo é, antes de tudo, cinza, e que não há mão ou gesto salvador vindo dos céus (ou Deus, de mim mesmo!) capaz de lhes secar o pranto, de lhes dar o conforto que nunca lhes deveria ter sido tirado.
São eles todos. Os olhos, os sonhos arruinados das mulheres de Jerusalém. Aquelas todas que não ouviram, que ousaram, que geraram, amamentaram. E enterraram.
Eles todos me seguem. Sete vezes por semana, vinte e quatro horas de cada vez. Os olhos, as vozes, as lamúrias e os choros das abandonadas mães de Jerusalém.
“Mulheres de Jerusalém, não chorem por mim! Chorem por vocês mesmas e por seus filhos! Porque dias virão, em que se dirá: ‘Felizes das mulheres que nunca tiveram filhos, dos ventres que nunca deram à luz e dos seios que nunca amamentaram.’”
(Lc 23, 28-29)


